Salvador de Bahia: Procurando Lia – e uma mitade de peixe…

Fossil of a fish, found in Bahia, Brazil

The fossil of a fish

Onde estará a misteriosa Lia, de Salvador? O que aconteceu com a pedra com a metade do peixe? Eu, um jornalista holandês, estou a procura de um fóssil de milhões de anos que um dia dei a uma moça em Salvador. Procure comigo! 

Era uma manhã de novembro em 1983. Na volta de uma viagem de trabalho pelo sertão de Pernambuco, onde, como jornalista, fiz uma série de reportagens sobre a seca, parei em Salvador por causa de uma escala para Amsterdã, onde moro.  O avião chegou às 10h00 da manhã e eu só pegaria o voo para Amsterdam às 19h00. Deixei a bagagem guardada no aeroporto e peguei um táxi para o centro da cidade. Eu não conhecia Salvador e, por sugestão do taxista, desci perto de um grande edifício, um tipo de mercado. No segundo piso deste edifício, havia um grande restaurante com muitas pessoas. Decidi almoçar lá. Leia mais…

Durante o almoço, numa fila contínua, os vendedores ambulantes passavam pela minha mesa oferecendo suas mercadorias. Recusei todas as ofertas, mas um menino, com mais ou menos 12 anos de idade, ficou rondando minha mesa. Ele falava em voz muito baixa: “Tenho algo especial, algo raro”. Levantei as sobrancelhas e de sua bolsa suja de algodão ele tirou algo pesado, embrulhado em um pedaço de pano. Cuidadosamente, desembrulhou uma pedra de cores amarela e marrom. De costas, para que os clientes do restaurante não a vissem, ele dividiu a pedra em duas partes. Em cada mão tinha a forma perfeita de um peixe do tamanho de uma sardinha, em que se via até escamas. O fóssil deveria ter milhões de anos.

Depois do almoço, saí do restaurante com minha bolsa pesada, levando a câmera fotográfica, a pedra e o guia South American Handbook, que na página 928 recomendava visitar a cidade alta. Lá me sentei num banco embaixo de um coqueiro, em frente a uma igreja antiga, para elaborar minhas anotações sobre o sertão. Duas pessoas que estavam sentadas a uns 15 metros, na sombra de outro coqueiro, chamaram a minha atenção por duas razões: a intensidade de sua conversa e a beleza dos dois.  O senhor idoso, com cabelos grisalhos meio longos e uma barba bem aparada, escutava com seus olhos fechados uma moça que falava com gestos nervosos e tinha seu corpo magro voltado para ele.

O homem falava pouco, assentia com a cabeça de vez em quando, pensativo, ou a balançava lentamente. Quando dizia alguma coisa, isso era acompanhado por movimentos lentos de suas mãos longas e finas. A jovem então escutava, de cabeça baixa, como se se confessasse. Em certo momento, o homem apontou repetidamente na minha direção, como se fizesse uma pequena palestra sobre mim ou sobre o banco onde eu estava sentado. A moça me olhou com curiosidade, mas não reagiu quando, num gesto amistoso, acenei com a mão. Depois de uma hora, o homem pôs seu chapéu de palha e se levantou. Esticou a camisa, alisou a calça acinzentada e pegou a bengala com a jovem. Depois de um rápido abraço, atravessou a praça, pensativo e com postura impecável, desaparecendo numa rua com casas coloniais em ruínas.

“Posso falar com o senhor?” A moça veio sentar-se ao meu lado e começou a perguntar, amigavelmente, sobre minha vida e sobre o que eu pensava do mundo em geral. Ela se chamava Lia. O velho, ela contou, era seu conselheiro. Toda quinta-feira, encontravam-se ali para conversar sobre sua vida e seus problemas. Quais eram exatamente os problemas ela não disse, mas de seu tom sério e olhar por vezes triste, intuí que eram de natureza existencial. O homem tinha dito a ela que fosse falar comigo, ‘porque o senhor, como viajante, com certeza sabe muito sobre o mundo’.

Depois de meia hora, Lia se levantou subitamente e disse: “Tenho que voltar para casa.”

– Posso acompanhá-la? – perguntei sem pensar. Ela pegou minha mão e me vi andando pela praça como se fosse o namorado de uma garota dez anos mais jovem. Sem dizer muito, fomos atravessando a praça e viramos numa longa rua. Em uma esquina, ela parou e disse: “Até aqui. É muito perigoso para você continuar”. O que começou com um abraço de amizade, terminou com um longo beijo apaixonado. De repente, ela se desvencilhou e desceu rua abaixo.

– “Espere, Lia!” – gritei.

Ela virou para mim. Tirei da bolsa a pedra embrulhada no pano sujo. Fui até ela e lhe dei metade do fóssil. Ela olhou em silêncio e passou o indicador sobre o relevo de milhões de anos. ‘Que bonito’, sussurrou. Virou-se novamente e desapareceu na Cidade Baixa, sem olhar para trás.

“Lia. Rua Chile. Metade do peixe”, escrevi em meu bloco de anotações.

(c) Wim A. E. Jansen            View Wim A. E. Jansen's profile on LinkedIn

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Fossil of a fish, found in Bahia, Brazil

O fossil. Procurando a otra mitade...

O autor, em 1983

O autor, em 1983

O restaurante no Salvador, onde foi comprado o fósil.

O restaurante no Salvador (1983), onde foi comprado o fósil.

    4 reacties op “Salvador de Bahia: Procurando Lia – e uma mitade de peixe…

    1. Que linda história….
      meio-peixe que nada em Salvador à procura da sua Lia, ou seja,
      O salvador que procura a sua sereia….

    2. Dat is het restaurant in de Mercado Modelo, bovenverdieping.
      2 maanden later in jan/84 vloog het gebouw (weer) in brand (voor de 5e keer).
      Inderdaad, je kon toen nog rechtsreeks Salvador-Schiphol, met de VARIG.

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